Cacifo 81

Entrei apressado e, no estreito corredor, passei sem olhar quem lentamente percorria o mesmo percurso.

Procurei o meu cacifo numa das pontas do balneário, equipei-me e enquanto me calçava vi quem há pouco tinha ultrapassado.

Os pés arrastavam-se lentamente. Respirava uma despreocupada apatia. Imaginei que procurava o seu cacifo cuja numeração está inexplicavelmente desordenada.

Desapareceu. Voltei às minhas coisas. Agarrei no telemóvel onde me demorei uns instantes.

Levanto-me novamente apressado. É o ritmo que está interiorizado. Encontro o homem e finalmente cruzamos o olhar. Contará bastantes mais anos que eu e está equipado com roupa desportiva fora de moda. Está perdido. Traz na mão a chave do cacifo e pergunta-me onde é o cacifo 81.

Reparo que o porta-chaves não é o original e o número está escrito à mão. Penso que aquela é uma chave de substituição.

Respondo que é o cacifo 18. Vou com ele até à outra ponta e identifico-o. Despeço-me e esqueço-me.

Recordo-me, um par de horas mais tarde, quando, de volta ao balneário o volto a encontrar. A cena repetiu-se. Deambulava perdido e pergunta-me outra vez pelo cacifo 81. Invadiu-me a tristeza. O cacifo continuava o mesmo, o 18. Repeti a viagem com ele e despedi-me.

Nestas alturas nunca sabemos quando é a última despedida.