Supermercado

As pessoas estão estranhas. Ficaram diferentes daquilo que durante décadas fui aprendendo a conhecer.

O caos na rua não deixa ninguém indiferente. O caos da televisão assusta muito mais do que as ruas que percorro. No entanto, as pessoas estão desconfiadas. E ao mesmo tempo disponíveis para acreditar em tudo.

Estão receosas que o fim da humanidade seja aqui e agora. Não é pânico. É o desconforto do desconhecido.

No supermercado as pessoas movem-se apressadas. Já não se passeia pelas prateleiras. É pegar e andar. As pessoas não se tocam. Não há contato. Há distância.

Demoro 20 segundos a decidir-me entre o pão mais fofo e o mais consistente. Atrás de mim uma alma espera que me despache para chegar à mesma prateleira. Já não se pede licença porque não se fala. Espera-se pela vez a uma distância segura porque o tempo em casa demora mais a passar.