Desculpa

Abri uma garrafa de vinho tinto e o paladar gostou do néctar que provou. É agradável e não contraria a publicidade impressa no rótulo: “Douro”.

No entanto, neste copo pouco mais molhei do que os lábios. Se tivesse esperado já não teria sacado a rolha da garrafa.

Este é o pior vinho de que me recordo e não é por falta de mérito seu. A culpa é do universo.

Aos meus olhos um sonho-felino tombou magoado. Eu não o consigo erguer.

Questiono-me se a queda era evitável. Pergunto-me como é que eu o poderia ter feito.

O copo de vinho permanece quase cheio. Volto a beber um trago. Enquanto não o vazar sentirei o seu olhar pousado em mim.

 Às vezes “desculpa” é o que importa dizer. É a única certeza quando as feridas estão abertas.

Despejo o copo para dentro de mim mas observa-me agora uma garrafa quase cheia.