Autocarro

As ruas não estão vazias. Estão muito mais vazias.

Não é um deserto mas há quem as pise com mais ou menos preocupação. Uma máscara atrapalhada na cara ou umas luvas descartáveis evidenciam um receio impossível de ignorar. 

Estou na minha pequena varanda com vista para uma paragem de autocarro que normalmente é ignorada pelo transporte público. Ninguém aqui deixa ou recolhe.

Porém nem sempre é uma paragem inútil. Há gente que desce do autocarro e há quem suba rumo a um destino que não está à distância de uma caminhada.

Agora, domingo ao fim da tarde, vi na paragem uma pessoa à espera de um autocarro que a tirasse daqui. O tempo passou lentamente e o banco da paragem tornou-se desconfortável. Mexeu as pernas numa curta caminhada em frente à paragem. Voltou a sentar-se e no fundo da rua ainda não se vislumbrava o autocarro. Mais uma caminhada.

Foi uma longa espera. Talvez uma metáfora para o que todos vivemos agora. Resta esperar. O nosso autocarro passará e iremos para um destino sem preocupações e cheio de quotidiano.

A espera é desconfortável. Ainda mais para quem espera, com frio, um autocarro num dos primeiros fins de tarde da primavera.