12 de Março

Gosto de anotar datas. Gosto de me recordar delas e de pensar que lhes devia dar algum carinho especial. Mimar os dias que me afastam do acontecimento.

Invariavelmente faltam-me palavras. Nestas ocasiões nunca me sobem as palavras que mereciam ser escritas. É a falta de capacidade que se envolve com a pressão do instante.

Passaram-se 6 meses desde que me fechei em casa. Foi a 12 de Março que, ainda sem leis, decidi permanecer em casa e ser parte da solução. O bem comum merece o esforço. Uma vida que se salve merecerá a pena.

Nem todos podemos ser actores de filmes de acção onde na última cena o mundo é salvo num acto heróico. 

Talvez um dia contabilize quantos dias fiquei sem sair de casa. Talvez um dia me esqueça de tudo isto.

Mas hoje, 6 meses depois de me esconder em casa, voltei ao centro da cidade como turista. Não encontrei a cidade que antes existia nem a cidade que imaginei.

Todos nos adaptamos. Eu próprio atravessei as ruas julgando-as com os olhos que não tinha há meio ano. Sou diferente hoje.

Os jornais continuam com páginas negras. Mais negras são as páginas que pensam que escreverão mais tarde. Num futuro próximo. Já amanhã. Ou não porque, às vezes, dizem que tudo afinal está bem.