Primeira Corrida das Festas de Loures

Costumo dizer em tom de brincadeira que as autárquicas são as unicas eleições que se deviam realizar todos os anos: Os buracos nas estradas são arranjados, os jardins ficam mais compostos, as obras estrategicamente adiadas são feitas. E à boa maneira de Roma, há Pão e Circo.

E o que é que isto tem a ver com corrida? Nada!

Bom, tem alguma coisa. Vem a propósito da ultima prova em que participei – A Primeira Corrida das Festas de Loures.

Esta foi uma prova que se realizou precisamente há uma semana e como o nome indica fazia parte do programa das festas do Municipio.

Prova de 10Km (o relógio contou menos algumas centenas de metros), com percurso circular de duas voltas de 5Km a iniciar no Parque da Cidade, passando pelo Infantado, pelo centro de Loures e de regresso ao Parque.

Como todas as provas em circuito tem vantagens – a possibilidade de conhecer os troços e saber onde gerir – e desvantagens – o facto de se repetir o circuito causa algum desgaste a nivel psicológico quando pensamos “raios, já estou queimado e ainda faltam duas voltas destas…”.

Pessoalmente pelo facto de morar perto da prova consegui acumular a vantagem e a desvantagem numa mesma corrida. Santos da casa não fazem milagres.

A prova foi gratuita, com um abastecimento de água, oferta de T-Shirt técnica e abastecimento na meta com água, isotónico, melão, banana, melancia. E medalha! Excelente value for money. Espcialmente  quando o money foi ZERO.

Ah, ano de eleições. Maravilha. Senti que o meu IMI estava condensado em cada talhadinha de melão que era servida no final. Desfrutei, ainda assim.

O resultado? Pouco mais de 45 minutos de prova, 164 lugar, 28 lugar do escalão. Queriam melhor? Repito: Santos da Casa não fazem milagres.

Havendo prova para o próximo ano, lá estarei. Provavelmente já sem fruta nem isotónico.

 

 

14ª Corrida de Solidariedade

Ainda antes de me descolar dos lençóis ouvi a chuva do outro lado da janela. Não foi surpresa. Os iluminados estudiosos dessa ciência oculta que é a meteorologia já o tinham profetizado.

Quando o local de partida e de meta não coincidem a chuva é um aborrecimento maior… “É só água” pensei em voz alta. Procurei um poncho de plástico esquecido numa gaveta e o tema foi ultrapassado.

“Chuva Pesada” no Facebook

O pavilhão do ISCPSI, que serve de quartel general da 14ª Corrida de Solidariedade, foi um abrigo perfeito até à hora da partida. Alonguei e mantive-me seco.

Juntei-me à causa, em beneficio da APAV, pelo terceiro ano consecutivo. É uma prova simples com a qual simpatizo. O seu amadorismo profundo não me incomoda. E os pastéis de nata, depois da meta, asseguram que a minha opinião se manterá positiva.

O percurso permanece inalterado. Exige, nos primeiros metros, algum cuidado com o pavimento irregular mas depois é acelerar até onde o corpo e a mente ousarem ir.

Não tenho direcionado nenhum treino para provas de 10 Km em estrada e por isso não me foquei num objectivo ambicioso. Queria manter um ritmo constante sem quebras finais… E isso já não é pedir pouco!

Curiosamente a prova desenrolou-se de modo inverso ao ano anterior. Parti à frente do pacer dos 4 minutos que me ultrapassou perto do meio da corrida. Não o acompanhei mas também não o perdi de vista.

Fui conseguindo ultrapassar alguns atletas na segunda metade da prova e nos dois últimos quilómetros acelero. O pacer incentivou quem estava à sua volta e quem, como eu, o tentava apanhar. Esforcei-me por abrir a passada e aumentar a cadência mesmo sentindo que já não o conseguia. O coração acelerou até ao último metro.

177 bpm, 176 bpm, 175 bpm…

Inspirei. Expirei. Inspirei. Expirei. Cumprimentei o pacer e agradeci a genuína ajuda.

Acho que a chuva não parou de cair. Não sei, estava desligado desse fenómeno natural. Senti-me contente por ter participado e melhorado o tempo de 2016 em 10 segundos.

Há dois pontos em que, sem grande esforço, a organização pode evoluir em 2018:

  • Um tiro de partida que se ouvisse! Não sei sequer se houve uma partida… Comecei a correr quando todos arrancaram;
  • Não é complicado ter um tapete para controlo dos chips na partida e para quem se preocupa com tempos (líquidos) isso faz toda a diferença.

III Trail de Almeirim – Na Rota do Vinho e da Sopa da Pedra

Foi um tremor de terra. Eu bem o senti. Todo o chão se moveu debaixo do meu corpo naquela descida que parecia não ter fim. Senti as pedras soltas que o meu esqueleto pisava. Não me consegui agarrar a nada e parei quando, por acaso, encalhei em alguma coisa.

Antes de me levantar tentei perceber se estava inteiro. Estava completo! Finalmente alguma coisa me corria bem no III Trail de Almeirim.

Entretanto chegou um atleta que de imediato me ofereceu ajuda. Agradeci e pedi-lhe que continuasse a sua prova. O sangue nos joelhos e nos braços não o convenceram e insistiu na oferta. Sorri, assegurei-lhe que a descer todos os santos ajudam e que iria continuar até à meta assim que respirasse fundo. Depois de passar a meta fui, pela primeira vez, cliente dos bombeiros. Simpáticos (“isso está feio”) e atenciosos (“se precisares de mais alguma coisa volta”) puseram-me melhor do que me encontraram.

Bem antes de pintar os joelhos a vermelho-sangue. (Foto Original: “A20KM – Trail Running Team”)

Comecei pelo fim da história mas recuo até à partida para partilhar que corri sem olhar para o ritmo a que me movia. O relógio mostrava-me apenas o batimento cardíaco e tentei guiar-me por ele como se fosse um conta-rotações.

Mantive-me sempre acima do ritmo que julgava óptimo mas senti-me bem e fui ingenuamente andando. Tinha, no entanto, a plena noção de que estava rodeado por atletas mais rápidos que eu e que a ousadia de os acompanhar era arriscadíssima.

Mas quem não arrisca não petisca! (Foto Original: “A20KM – Trail Running Team”)

Finda a primeira metade da prova as pernas acusaram o esforço e o desgaste de um sobe-e-desce sem fim. Abrandei para tentar recuperar mas, se o ritmo cardíaco baixou, as pernas estavam perdidas. Os últimos 10 Km foram concluídos num grande esforço muscular com diversas paragens para alongar.

As minhas velhas amigas câimbras fizeram-me uma visita à moda da Idade Média. Deixei de conseguir correr mas obriguei-me, sem piedade, a insistir nesse esforço.

Honestamente a queda, já no fim da prova, não prejudicou o meu desempenho. Sei que não abordei a prova de uma forma cautelosa e acreditei que fisicamente estaria melhor preparado.

Relativamente à prova algumas considerações e elogios:

  • Organização sem reparos, repleta de voluntários animados e dedicados. O ambiente da prova é bastante agravável;
  • As instalações são igualmente óptimas em termos de acessibilidade e com luxuosos banhos quentes no fim;
  • O almoço (incluído na inscrição) reconfortou-me e colocaram-me à vontade para repetir se o desejasse;
  • As marcações não falharam e eram facilmente visíveis face ao generoso tamanho das fitas;
  • Os abastecimentos foram abundantes numa prova com menos de 30 Km!
  • A massagem gratuita (praticamente sem fila de espera) é mais um ponto positivo que deve ser destacado;
  • O percurso da prova dos 30 Km é que não me arrebatou. Os circuitos em ziguezague, por vezes às voltinhas numa pequena área delimitada não acrescentam para mim grande beleza. Mas é uma questão de gosto pessoal porque sei que há quem os aprecie.

VI Trail Montes Saloios

A meteorologia que pouco mais dá do que previsões anunciava chuva. E chuva forte. Não havia alternativa. E foi debaixo de chuva, ainda de noite, que conduzi até Covas de Ferro para repetir o Trail Montes Saloios.

É uma prova simpática, perto de Lisboa, com várias caras conhecidas a dispararem fotografias e incentivos nos abastecimentos.

A partida coincidiu com o fim da chuva. Coincidência, porque não existem fenómenos que a lei das probabilidades não justifique, mas uma coincidência agradável que se estendeu a toda a prova. Nem houve chuva digna de ser referida nem ventos fortes!

Na aproximação (rápida) ao primeiro PAC!

À semelhança do ano anterior a prova pode ser dividida em duas partes. Uma inicial rápida e uma seguinte trepadora. Nenhum delas foi fácil mas ambas são divertidas. A abundante lama e as infinitas poças de água, que nem tentei contornar, foram constantes.

Honestamente o maior mérito não esteve em terminar a prova. A virtude está do lado de todos os que se levantaram da cama com tanta chuva na rua e optaram por não ficar debaixo dos lençóis. Todos sabemos que a chuva é apenas água mas o chá quente e uma manta nas pernas são bem mais tentadores.

A escassos metros de atravessar uma ribeira.

Sem reclamações a apontar deixo duas meras sugestões para o ano (porque em 2018 penso voltar)!

– Anunciar a distância exacta. Os 26 Kms previstos transformaram-se (ainda antes da prova) em 27,6 Kms e no terreno o GPS converteu-os em quase 29 Kms. Ninguém se aborrece com mais uns metros mas a diferença é significativa;

– Corrijam, por favor, o “benvido” que está pintado na parede do pavilhão. Eu prefiro ser “bem-vindo” a Covas de Ferro! Obrigado!

“Benvindo”?!

 

Ericeira Trail Run 2016

O dorsal surgiu-me no colo por magia do PMC e foi inevitável calçar os ténis.

Do Ericeira Trail Run pouco ou nada sabia. Nunca tinha tido a curiosidade para pesquisar muito sobre a prova apesar da proximidade a Lisboa. Manias minhas.

Assumi a corrida como um treino em prova! Resolvi partir depressa e aguentar, aguentar, aguentar… O plano era simplesmente seguir num ritmo forte até rebentar.

Não compreendi bem a partida (supostamente) controlada que alongou imensamente o pelotão nos metros iniciais. A prova começou a sério junto à Praia do Sul para depois se iniciar uma subida em alcatrão. E foi em alcatrão que continuou. O alcatrão foi uma presença próxima. Em loop encravei no pensamento “devia ter trazido os ténis de estrada… devia ter trazido os ténis de estrada… devia ter trazido os ténis de estrada”…

A zona da foz do Rio Lisandro é a mais bela de todo o percurso da prova mais curta. É agradável (tentar) acelerar naquele trilho! Mas a beleza deste 2 Kms não chega para fazer uma prova.

Cruzei a meta com uma média-canhão para aquilo que estou habituado numa prova de trail. E isso facilmente se explica por esta prova decorrer em terreno misto. Não é trail. É algo híbrido pelo menos na distância dos 20+ Kms.

Saliento ainda a falta de elementos da organização ao longo do percurso (com excepção aos pontos de abastecimento). Em duas passagens de estrada mais perigosas teriam sido um conforto relevante.

Honestamente não é uma prova que me seduza repetir.

Acompanhou-me em prova o JAD regressado de uma paragem por lesão. Terminou como sempre cheio de força e feliz por regressar às lides.

Fim!

III Grande Trail das Lavadeiras

Começando pelo menos importante, é incontornável salientar que a promoção do Grande Trail das Lavadeiras (GTL) é original e cativante. No logotipo imperam orgulhosamente umas cuecas vintage que facilmente semeiam a curiosidade.

Modelo de 1920!

No ano passado equacionei inscrever-me mas, por um motivo ou por outro, não participei. Este ano alinharam-se os astros e lá me arrastei de madrugada para a linha de partida. Cheguei em cima da hora mas com 42 quilómetros para palmilhar não encontrei motivos para pressas. Ouvi o briefing enquanto apertei os ténis e ajustei o colete. Parti na cauda do reduzido pelotão.

O primeiro trilho, pouco depois da partida, demonstrou-me que o percurso seria bem mais duro do que tinha antecipado. Até à meta não faltaram obstáculos naturais e a corrida rolante que imaginei não existiu. Deu para correr, como gosto, mas foi muito exigente.

Isto comprovou (novamente) que o gráfico com a altimetria é um indicador redutor sobre a dureza de uma prova.

Não faltaram abastecimentos!

Não faltaram abastecimentos!

Ao longo das mais de 6 horas em que me mantive em movimento fui conversando comigo mesmo num monólogo muito enriquecedor. Retenho ainda algumas notas relevantes:

  • Num mundo perfeito o material para provas de Trail é descartável para se dispensarem as demoradas lavagens;
  • Não sou adepto de atravessar cursos de água nem aprecio patinagens na lama;
  • As placas de sinalização “perigo!”, especialmente quando antecedem zonas realmente perigosas, aborrecem-me por não ter aptidão para acrobacias;
  • Não faltaram single tracks e a abundância neste assunto é um ponto muito positivo;
  • Pessoalmente retirava ao percurso algumas zonas técnicas e dispensava a passagem pelo “Pantanal”. Sei que esta opinião não é generalizada pelo que não me importarei de lá voltar desde que munido de galochas;
  • Os abastecimentos confortam mais com dois dedos de conversa e os voluntários não se pouparam em sorrisos e incentivos! Obrigado!
  • É divertido ouvir outro atleta, durante a prova, a amaldiçoar a inscrição e garantir que não regressará no próximo ano. É ainda mais divertido depois da meta ouvi-lo feliz, já sem lamentos, e com um sorriso de fazer inveja;
  • Gosto de água quente no banho após a prova. As instalações no local da partida/meta são óptimas;
  • Gosto da presença visível de bombeiros que estiveram espalhados pelo percurso.

Depois de muito procurar encontrei-me (ainda não muito sujo) no Love Me Tender!

Uma única reclamação não consigo conter! Em linha com a primeira consideração deste texto a tshirt oferecida entristeceu-me. A cor e o material não merecem reparos mas a reduzida dimensão do cuecão do logótipo é lamentável. Devia estar centrado no peito ampliado umas 20 vezes. Como o “S” do Super Homem!

Atravessei a meta satisfeito e é uma prova que poderei repetir com prazer!

 

VIII Trilhos de Casainhos

O ano ainda não acabou e quando chega o Inverno os trilhos ficam mais felizes. A água que cai dos céus aviva as ervas e tempera o ânimo de qualquer praticante de trail. O som dos ténis repetido na gravilha molhada e a garantia de patinagem artística agravada em cada descida com lama, são musica para os nossos ouvidos.

Repito: o ano ainda não acabou. O calendário reserva ainda alguns desafios para quem os queira aceitar e não pude deixar de participar numa das provas de trail mais perto do local onde vivo – Os trilhos de Casainhos. Para nossa sorte ou nosso azar não choveu no dia de Casainhos, mas fui igualmente feliz.

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TAC, JAD e PJM. Pré-race.

TAC, JAD e PJM. Pré-race.

Esta prova vai já na sua oitava edição e é organizada pelo Sporting (SPOOORTINGGGG) Clube de Casainhos. É uma prova familiar. Não ter um chip no pé já costuma dizer alguma coisa. Mas se duvidas houvessem, a foto de familia no inicio com todos os participantes como bem descreveu o Sr. Ribeiro na sua crónica, tê-las-ia esclarecido. Como diz o Sr. Ribeiro, parecia uma daquelas fotos de grupo dos casamentos. Como sabemos, nos casamentos existe sempre aquele tio que não sabe beber e se enfrasca demasiado cedo. Pois, eu estou para o corrida como o bendito tio do casamento está para o álcool – não me devia meter nisso mas acabo sempre por me desgraçar. A verdade é que não tenho muito jeito para correr. A minha morfologia (peso, entenda-se) não favorece. E estes tornozelos. Ai, estes tornozelos. Por essas razões tenho corrido pouco nos últimos meses. Descobri o ginásio e formas alternativas de manter a forma, principalmente, a forma mental. Enfim, outras coisas que para vós, ilustres leitores, pouco interessam.

Quando antes da partida vi um atleta com perímetro abdominal superior ao meu percebi que já não tinha desculpa para ficar em último e fiz-me à vida.

A prova: honesta. Tem 15 Km e são mesmo 15 Km irrepreensivelmente marcados. Ideal para quem se queira iniciar na modalidade. Os trilhos são variados e depois de quase 2 Km dentro da localidade entramos no terreno não asfaltado e é sempre divertido até ao fim. Aos 8 Km tivemos direito a uma parede daquelas que quando começamos a subir não percebemos exactamente onde acaba. Não sei a distância precisa (1 Km?) e o desnível acumulado dessa subida (200 D+?), só sei que depois de a subir o relógio indicou que tinha demorado 18 minutos a fazer o ultimo quilometro.

Para quem não queira levar hidratação, três abastecimentos de água (um deles com sólidos) e água no final são mais que suficientes, parece-me. O que não me parece justo é que passado dois dias ainda sinta algum empeno. É o preço a pagar pela falta de treino dos últimos meses.

Para quem assim escolheu, há também feijoada no final da prova. O repasto do nosso casamento com os trilhos e com a simpática colectividade de Casainhos. A inscrição inclui uma também uma T-Shirt com a bonita (não estou a ser irónico) insígnia do Sporting Clube de Casainhos. Pois: Nós só queremos o Casainhos Campeão! Ganharam um apoiante para essa causa!

Acabo como comecei: o ano ainda não acabou. Para mim o ano começa no seu ultimo dia porque é o meu aniversário.

Acho que ainda mereço uma São Silvestre. Com chuva.

90 Minutos de uma Maratona

Cada prova é uma festa. Adoro cada momento… O trajeto até ao local de partida, o ambiente, as conversas… O meu olhar percorre viciado cada canto, estudo cada atleta, procuro e encontro mil vezes o motivo de ali estar. Estou onde quero estar!

É por tudo isto que me apresentei à partida da Maratona de Lisboa mesmo sabendo que não a podia terminar.

No inicio de Agosto, aproveitando as férias, aumentei o numero de treinos e Kms. Uma dor de esforço no joelho obrigou-me a parar desde então. Sem treino e com receio de piorar a lesão seria no mínimo imprudente desafiar-me para além daquilo que podia.

O meu objetivo passou então por percorrer calmamente os 15 Km que me separavam de Santo Amaro de Oeiras, onde a família me aguardava. Assumi dois compromissos, parar se sentisse que estava a forçar algo (o que felizmente não aconteceu) e resistir à tentação de continuar até final por mais aliciante que fosse a promessa de um gelado e uma banana.

Sobre a prova pouco sei contar, a partida correu bem, corri cada Km com um sorriso, bem acompanhado por muitos desconhecidos, ri-me com inúmeras particularidades desta prova, apreciei a agua oferecida a cada 2,5 Km, cheguei à minha meta como queria, sem medalha mas com duas crianças a gritar por mim.

Hoje não é um relato de superação, 100 Km percorridos ou recordes batidos. Corro porque gosto e é algo que quero fazer bem por muitos e bons anos. Por isso há que respeitar duas coisas: a prova e o nosso corpo.

Para o ano a Maratona de Lisboa estará certamente entre as 168 provas que gostaria de alinhar à partida ao lado dos meus amigos e companheiros de corrida.

IV Trail do Sor

À semelhança do TNLO apresentei-me na partida da IV Trail do Sor longe de estar fisicamente bem. A pata esquerda não se tinha manifestado nos últimos dias e arrisquei a recuperação em curso sem necessidade. Em bom português deveria ter ficado em casa a comer bolachas mas nem ponderei seriamente essa possibilidade.

Eu nem gosto assim tanto de bolachas (Foto Original: “Runners Dream Moments”)

Eu nem gosto assim tanto de bolachas (Foto Original: “Runners Dream Moments”)

Se é verdade que não senti uma recaída da lesão (terá sido sorte?) a falta de treino manifestou-se sem grandes hesitações e com garra (não foi um azar). O corpo rapidamente se habituou a estar parado e actualmente renega com veemência a actividade física.

A temperatura alta durante a prova, julgo que tocou os 42 ºC, foi a surpresa (talvez não tão inesperada) que a todos castigou. A organização atenuou esta dificuldade com brio: foram colocados abastecimentos líquidos extra e pontos para refrescar o corpo (e a alma). Acresce que, as marcações estavam óptimas, os voluntários não faltaram e o local da partida e chegada oferecia boas condições. O percurso não sendo fabuloso é óptimo face à diversidade da envolvente!

O verde e a água embelezaram parte do percurso (Foto Original: "Eléctrico Futebol Clube")

O verde e a água embelezaram parte do percurso (Foto Original: “Eléctrico Futebol Clube”)

Tentei ser conservador no início da prova e mesmo assim aos 12 Km senti-me demasiado cansado para aguentar até ao fim. Dobrei a moderação do ritmo e aos 25 Km enfrento o monstro das câimbras. Alternei corrida e marcha até aos 30 Km finais.

Ultrapassei as 4 horas que tinha estipulado como máximo aceitável e reconheci, depois de cruzar a meta, que teria de parar por “uns tempos”.

Não sei quanto dura “uns tempos” mas duas semanas depois penso que poderei voltar a treinar. A corrida é, e tem de continuar a ser, um passatempo. Apenas faz sentido enquanto gerar boas sensações e permitir ultrapassar desafios. Arrastar o corpo fingindo que a dor é psicológica não é prudente.

No entanto, apesar da aparente contradição, talvez tenha sido essa a razão que me levou à prova. Quando o corpo se queixa com dor o desafio é mantê-lo erguido o tempo que for preciso. O preço a pagar por essa rebeldia é definido pela consciência individual e não admite arrependimentos.

Sem dúvida que para mim o ideal teria sido não ir. Mas ter participado não foi errado.

VIII Trail Noturno da Lagoa de Óbidos

Terminei o VIII Trail Noturno da Lagoa de Óbidos (TNLO).

Desanimado, sentei-me para sugar a (óptima) sopa, e o pensamento apático deambulou sem um fio condutor.

Permaneci, pouco comunicativo, a descansar mais uns minutos e lamentei, com os meus botões, a noite não dormida. Uma brisa fria não me deixava sossegar. Arrefeci, senti a roupa gelada a contaminar-me o corpo e coxeei até ao carro estacionado do outro lado da vila. Abdiquei da massagem, que só me teria feito bem, na ânsia de um pouco de calor (numa noite de verão).

Nos instantes imediatos à conclusão da prova, o que correu menos bem absorveu-me o raciocínio. É fácil de acreditar que nenhuma inspiração positiva surge num momento de dor.

Dias depois amadureci finalmente a conquista de concluir os 60 Km. Terminei!

É esse o prazer que se destila quando as más sensações se evaporam. Embora simples e banal, terminar é sempre uma vitória! É uma vitória quando se atingem os objectivos. É igualmente uma vitória quando, contra a maré, se chega a bom porto.

Fui quase o último na classificação mas a recordação de terminar é de primeira linha!

Briefing

O briefing inicial para quem se aventurou nos 60 Kms (Foto Original: “Bué da Fotos”)

Algumas considerações:

  • Foi a minha 4ª prova nocturna e ainda não conclui se gosto de correr à noite. Acho que se realmente apreciasse já o saberia. Também creio que se fosse desconfortável já o teria assumido. Talvez me seja indiferente… É um tema a acompanhar;
  • A inclusão da prova de 30 Km no campeonato do ATRP implicou que os 60 Km cativassem menos participantes que em 2015. Cada vez mais valorizo a importância da presença/companhia de outros atletas em ultra-distâncias;
  • Gostei da alteração do local de partida e chegada. Não me desagradou a substituição das arribas da praia pelo percurso à volta da Barragem do Arnóia mas tive pena de não contornar toda a Lagoa de Óbidos como no ano passado;
  • Assumindo que ninguém externo à organização danificou a sinalização, importa salientar que as marcações foram insuficientes. Pela boa experiência de 2015, é óbvio que saberão não repetir este lapso;
  • O spray reflector utilizado em algumas marcações até funciona mas não é uma grande opção. Outro aspecto a rever são as várias cores das pequenas fitas reflectoras que apenas potenciam mais confusão. Eu gosto de fitas grandes como as que usaram na caminhada!
  • Antes do abastecimento dos 20 Km perdi-me pela primeira vez. Recuei. Voltei a insistir. Espreitei de um lado. Depois do outro… Regressei novamente atrás… Não sei quanto tempo andei às voltas mas à noite é fácil perder o norte. Quando finalmente encontrei marcações entrei no trilho em sentido contrário… Não demorei muito a perceber esse erro e lá me orientei de novo;
  • Com menos gravidade, voltei a perder as marcações várias vezes… Mesmo seguindo em grupo;
  • Cheguei ao abastecimento dos 40 Km próximo da barreira horária. E conclui a prova igualmente a roçar o tempo do limite. É curiosa a facilidade com se escorrega do meio para a cauda pelotão;
  • Senti dores no pé esquerdo nos últimos 25 Km. Continuei consciente que a dor seria muito maior assim que o pé arrefecesse (e foi). Racionalmente sei que devia ter parado mas optei por continuar. Não tenho uma justificação além de assumir que foi uma opção;
  • Gostava de saber quantas pessoas desistiram na prova dos 60 Km. Eu cruzei-me com mais de uma dezena… Sei estavam 208 inscritos e que terminaram 128 atletas. Não sei quantos partiram;
  • Teria sido simpático encontrar mais voluntários ao longo do percurso;
  • Acho imensa piada aos prémios Finisher! Uma tigela de sopa dá sempre jeito (não estou a ser irónico)!

O “Falso Fácil” foi (novamente) um puro difícil e a glória de concluir a prova é para recordar. Terminei! E a teimosia conduzirá-me novamente em 2017 para a noite obidense.

Pouco depois da partida à saída do castelo.

Pouco depois da partida, no meio do pelotão (Foto Original: “Bué da Fotos”)